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domingo, 1 de agosto de 2010

MEUS TESOUROS

Muita gente acha que sou uma cachorrinha rica que é tratada a pão-de-ló. Verdadeiramente eu sou mesmo! Adoro comer pão e a mamãe sempre me dá um, bem cedinho, escondido do papai. Aliás, todos aqui me alimentam com restos de comidas, pãezinhos e pequenas guloseimas, só o papai que não. Ele dá o que mais preciso e tenho: carinho!

Outro dia parei para pensar – cão pensa, e muito- e percebi que a vida insana de vocês é muito triste. Uma correria sem fim. Pressa para tudo e que no fim não resolve nada. Primeira coisa que faço quando acordo é espreguiçar, me estico bem e quase na posição de Yôga, (procurar aquela em arco, com as mãos no chão e braços retos, olhando para cima e pernas esticadas com os pés juntos) respiro bem fundo e lentamente vou ao banheiro.

Solto o produto com orgulho e devoção. Um cachorro sempre gosta das suas eliminações. Não tem vergonha dos seus gases e muito menos fica com o bumbum sujo ou assado. Vocês comem mal pela manhã e saem às pressas para trabalhar ou então estudar. Alguns nem fazem cocô, o que leva a carregarem as fezes consigo, são os enfezados. Onde já se viu um animal não cagar logo cedo? Ou depois das refeições? Bicho gente é entupido.

Esse é o meu primeiro e mais importante segredo. Tenho uma vida interna rica e rigorosa. Meus hábitos são arraigados há anos e por isso sou feliz sem precisar de outrem. E se por ventura uma pessoa ou cão à minha vida se assomar, será lucro! Pois a minha alegria intrínseca, meu rabo abanando para as manhãs gloriosas de julho e agosto são suficientes para manter-me bem. A mim eu me basto.

Mais uma coisinha, os passeios. Ninguém ao se reunir com os amigos, parentes, colegas e afins fica contando coisas do trabalho ou de que estudou português o dia inteiro para ser aprovado em um obscuro concurso. Duvido. Nós gostamos de falar sobre viagens, saídas e novos conhecimentos. Eu, por exemplo, nunca me esqueci quando fui ao Morro Feio. Quantos cheiros diferentes! A topografia variada, hora com pedras, hora lama e depois até areia! Eu estava em êxtase. Focinhando tudo e meu pelo eriçado pelas novidades.

Cada experiência dessas, cada conhecimento adquirido, assim como minha vidinha privada e particular, ninguém me tira. E ainda mais, eu posso compartilhar com todos. Já reparam como o universo de vocês é cada vez mais egoísta e imediatista? Nem música escutam juntos. Tem um tal de fone de ouvido que é uma peste. E a capacidade de suportar frustração? Baixíssima. Se eu ficar trancada num quartinho a tarde inteira – e isso já aconteceu mais de uma vez – e depois o povão chegar, eu irei fazer a maior festa ao abrirem. Vocês ficam emburrados e nem aproveitariam esse tempo de isolamento para meditarem. Menos de 1% dos humanos medita, depois leiam sobra a origem dessa palavra: medita-Cão.

Noto que há um excesso de proteção familiar misturado com esse imediatismo idiota. Os pais hoje superprotegem as crianças, elas viram adolescentes inseguros e adultos frouxos. Não conseguem fazem nada. O que desejam é para ontem. Eu fico sonhando em comer uma carne de coração de boi durante meses e como é saborosa! Aliás, só de pensar nela já fico babando toda.

E tem a família Alencastro. E tem o Dexter, meu namoradinho. Meus amigos e a minha paixão. A amizade é mais rica do que o desejo, pois não exige posse e nem cobrança. Deles nada peço e nem quero. A simples existência dos quatro, me supre. Cada um com sua personalidade única e curiosa. Cães de alta estirpe. Solenes e sonoros. Além de um odor característico que consigo pressentir a quilômetros de distância. A impressão que tenho é que se precisar algum dia deles – e uma vez fiquei internada e até tomei sangue – irão me socorrer de imediato sem nada perguntar ou cobrar.

Já o Dexter é o pai dos meus nove filhos. Carinhoso, brincalhão, tem um dono que é um amor -o Ladis- que o educou como um verdadeiro cavalheiro. Fêmea não gosta da violência do sexo forçado. Nós apreciamos o romance, as lambidinhas, o cheirar prolongado, a esfregação deliciosa. Para depois sim, depois da ternura há de endurecer. Carrego comigo as lembranças de todos aqueles momentos lindos. A correria pela casa dele, no meio das bicicletas, das máquinas fotográficas, dos cartuchos de vídeo-game, do material aquático. E nós ali, nem te ligo...

A conclusão é de que sem uma paixão o amor não floresce e essa sensação vem de dentro para fora. E se esparrama por todas as suas atitudes e meio-ambiente. Sou uma apaixonada. Depois a amizade e os amigos, bens inestimáveis e eternos. E por último a vida própria, carregada de segredinhos e atos minúsculos que geram prazer diário e inenarrável. São meus três tesouros. Posso dividir com vocês, pois o que a gente possui de verdade é aquilo que podemos dar e nunca irá faltar. Apenas renovar.

Úrsula Maff

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Entre Dois Amores




Alguém já deve ter visto o filme com a Meryl Streep e o bonitão do Robert Redford. É na África. Mas só o título que importa... Que mulher nunca ficou dividida entre dois amores? Um do passado –que retorna- e o do presente? O legal e aquele que mexe com você? Um que é belo de se ver e outro de conversar? Eu convivo diariamente numa dualidade tipicamente feminina. Qual escolher? Qual deles eu amo mais? Nem sei...

O primeiro é um Dinamarquês, ou Dogue Alemão. Ele é enorme, gigantesco. Mas não é abrutalhado, ou tosco, ou grosseiro. Ao me colocar em sua cama, enrolo-me aos seus pés (como são grandes!) e delicadamente ele me acaricia. Seu pelo é tigrado. Adoro abraçá-lo e encostar-se ao seu peito quando ele chega da aula e deita comigo no sofá. Sua voz é firme, um latido alto e sonoro. Inigualável. Territorial, mas dócil. Adora crianças. E sua simples presença impõe respeito. Junto dele sinto-me tranqüila e serena.

O outro é um Dobermann, também alemão. Pelo marrom, e hipnóticos olhos verdes. Eu nem consigo ficar mirando de frente, rapidamente fico com a barriguinha pra cima para ele coçar. É mais velho do que o Grand Danois, acho que poderia até ser pai dele. Mas essa maturidade é que me detona! Perto dele eu mudo. Não aceito ninguém sentado ao seu lado e se for fêmea eu rosno, rosno e rosno. Se for macho eu também fico ligadíssima, sua atenção deve ser só para mim. Mas ele ri. Ri muito e basta estalar os dedos que eu venho. Basta dizer meu nome: - Úrsula! E acabou. Sou toda dele.

Outro dia o Dogue deixou uma sunga no chão, eu guardei na minha caminha. Vasculhando o quarto do Dobermann, encontrei uma gravata. Não resisti! Recolhi aquele objeto também. Deitei-me exatamente em cima de ambas, tomando cuidado para meu corpo tocar o mais possível cada um dos vestuários deles. E também metade na sunga e metade na gravata. Não deu. A gravata enrolei no pescoço e a sunga ficou aos meus pés. E assim foi.

Com é que a gente se liga tanto nestes detalhes? Uma roupa, um sorriso, uma palavra. Tudo que eles fazem, estou atenta. E parece que eles às vezes nem percebem que estou ali. Entretanto eu os sigo, pela casa toda; o tempo todo.

Se fosse comparar a idade canina deles, o Dinamarquês é muito jovem para mim 2,28 anos e o Dobermann tem 6,7 anos. A minha idade humana seria mais ou menos de 42 anos. Contudo o que separa os animais apaixonados é o comportamento. O que posso dar de atenção e carinho é minha maior preocupação, em segundo plano, o que consigo e aprecio receber.

Entretanto não existe um “carinhômetro” e nem um “atenciômetro”, mas como cachorrinha esperta que sou, quase uma anteninha viva, sei que ambos me amam! Assim ficou fácil, basta eu decifrar aquele que mais tenho afinidades. O que vem sendo impossível. Poderia colocar os dois para brigar, compará-los (as duas coisas que os machos mais detestam é serem testados e comparados) e ver qual ganha. Mas o problema é que eles se dão muito bem. Uma dupla formidável. Aí quem perderia seria eu, e os dois!

Já desisti de minhas elucubrações afetivas. Fico com ambos enquanto der certo. Atualmente faço um revezamento noturno entre os quartos e na hora do almoço dou uma chance para as donas e como na mão delas. No intervalo do dia, quem chega primeiro eu faço festa. E quem chega depois, as gracinhas vão na mesma medida com ronronares – cão também ronrona – e reboladinhas sutis.

E você? Quem escolheria? Entre os magros, fortes, inteligentes e dedicados exemplares? O maior, mais calmo e tranqüilo? Ou o menor, mais elétrico e audacioso? Eu já fiz minha opção, mas não vou contar; quem descobrir, eu confirmo. E na sua casinha? Quem é o dono escolhido? Qual o cão botou a patinha e disse, é ele?

Mais vale um cão na pata do que dois cavando.

Úrsula Maff