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sábado, 5 de junho de 2010

Público e Privado

Umas das coisas que mais gosto é andar de carro. Lá em casa tem dois. Um grandão e um pequeno. Prefiro o conversível. Pois rodando o tempo todo com as patas na porta e o ventão batendo na minha cara, fazem-me imensamente feliz.

Nos fins-de-semana, ou quando ele chega mais cedo do trabalho – vai buscar sua filha no colégio – eu sei que irei sair no automóvel. Fico correndo pela casa, tamanha a excitação. Mas não urino no local errado e nem faço cocô. Espero o momento da saída. Quando não dá, eu tenho aquela região já previamente coberta com o jornal que me sirvo bem.


Infelizmente assim que o veículo prateado, de bancos vermelhos, origem alemã como eu, adentra na luz do sol, sinto o drama do trânsito. Os humanos confundem claramente as coisas. O público com o privado. O carro é de um só, mas a rua é de todos.


Eles conseguem cagar em tudo! Utilizam o lado esquerdo para circular, em vez de somente para ultrapassar. Jogam coisas no chão. Estacionam em fila dupla e ficam buzinando na porta dos colégios. Imagina-se que no local onde se recebe uma boa educação eles – os adultos – chegam mostrando justamente a falta dela.


Um péssimo exemplo para os filhotes em formação. Eu, espero meu dono estacionar e só desço depois que ele abre a porta. Tenho modos. Ele jamais fica parado no meio do caminho, vai comigo buscar a sua filhotinha. Seus cumprimentos são afetuosos, esfregam bem os rostos e se beijam. A maioria dos pais nem fala nada, abre a porta com pressa e saem com seus carros fechados e vidros escuros.


Fico imaginando o que conversam. Será que os pais sabem os nomes dos colegas? Ou só olham o boletim? Será que avaliam seus filhos pelo caráter, comportamento social, suas amizades? Ou só estão preocupados em desempenho? Aqui em casa há muito respeito. Cada um tem sem ninho próprio, apesar de eles ficarem juntos a maioria do tempo. Batendo papo.


Ninguém lê as coisas dos outros e acho que o papai nunca nem abriu a porta do armário da mamãe. Outro dia ela viajou e deixou a bolsa e o celular em cima da mesa e ele nem mexeu! É por essas e outras é que eles têm total segurança em me soltar no parque. Eu saio correndo em desabalada carreira, igual ao Spyder dele. Mas basta um assovio e estanco. Volto meu pescoço e retorno correndo mais rápida do que já fui.


Em nenhum momento ataco os outros cães ou as pessoas. cheiro. E sei que eles morrem de inveja de mim, pois estou sempre solta. Evito conflitos. Não estou na minha casa, onde faço o que quero. E até lá tem limites.


Entretanto o que vejo nas esquinas é uma confusão tão grande, que nunca conseguirei entender como um carro pára na sombra, se eles têm capota e ar-condicionado! Ou porque ficam acelerando e se movimentando com o sinal fechado, como se fossem avançar numa presa. Um cão em posição de ataque é imóvel e só vai na certeza.


É um absurdo o raciocínio egoísta dos humanos. Eles conseguem formar bandos imensos, vilas, cidades; mas não conseguem trafegar entre si sem se xingarem, latirem e mostrar os dentes.


Sugiro uma voltinha com meu dono. De carro. De chapéu. De lenço voando. De pelo ao vento. Cumprimentando sorridente aos amigos e dando passagem aos coitados que têm pressa de ir e que nunca vão saber viver. Pois o segredo está no caminho bem feito, e não na saída ou na chegada.


Úrsula Maff