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domingo, 1 de abril de 2012

Quinta está no ar, cinema: CAVALO DE GUERRA

Mais uma resenha do titio COBRA, onde ele expressa todo seu amor por esses poderosos e meigos animais: os cavalos! Ah, todo schnauzer é louco com cavalos...

“Cavalo de Guerra”

Meu pai foi diretor do Hipódromo da Lagoinha, adorava cavalos e montava esplendidamente. Meu irmão, um cavaleiro nato, criou mangalargas marchadores e até hoje é sócio do clube local. E eu? Acho que em outra encarnação devo ter sido um deles, tamanho o meu apreço e identificação por estes animais extraordinários. O filme? Mostra a história de um castanho escuro, um “Hunter”, que puxava arado, corria, saltava e era amável como ninguém.

O pai é um ex-combatente miseravelmente marcado pela Guerra dos Bôeres, triste, sequelado e alcoólatra. A mãe já foi bela, ainda apaixonada por seu homem e encantada pelo filho. O rapazinho é doce, forte, sonhador, empolgante e empolgado. O cavalo? Inquieto, calçado nas quatro patas, estrela na testa e de uma resistência e velocidade incomuns, só encontrada no melhores Warmblood holandeses. Eles formam uma dupla inseparável. O rapaz e o animal.

Primeira cena é a da compra do bicho. Estarrecedor seu porte e andadura. Depois ele aceitando puxar o arado, coisa que cavalo que corre não faz. Cada momento é de superação o que vai –logo no início- levar as lágrimas os mais sensíveis. A família reunida por um objetivo comum, a lavoura. A chuva arranca o nabo, destrói os sonhos, tem que vender o tesouro.

Quem compra encanta-se imediatamente. Segunda cena de impacto é a corrida contra outro garanhão, este enorme, um PSI (puro sangue inglês) preto. Quem acha que serão inimigos, ledo engano. Tornam-se inseparáveis. Daí em diante a guerra explode totalmente, estamos na França, na Primeira Grande Guerra, apesar do batedor indiano, um sikh, errar feio, o cavalo sobrevive.

Dois irmãos desertores alemães, fogem com a dupla equina, param num celeiro. Menininha com o avô. Não tem jeito, você vai se emocionar. Sempre que alguém no filme se depara com o animal percebe imediatamente que se trata de um ser especial. E Spielberg faz questão de mostrar isso em planos fechados lacrimejantes e contraluzes de arrepiar o mais empertigado espectador.

Daí em diante as cenas dos horrores da guerra são violentas, mesmo aos olhos de um cavalo e pelo tamanho dos cílios, percebo que nem sempre é o mesmo animal-ator. E a andadura hora parece de um andaluz (puro sangue espanhol) e até apresenta o tríplice apoio característico dos mangalargas... Mas nada disso importa, o que ocorre é que o animal muda de dono e de lado no meio da estupidez bélica humana.

A morte de um belo exemplar é triste e o sol se pondo atrás é pungente, quase piegas. Entretanto com o galope desabalado que ele imprime, o filme parece correr direto para a tristeza imensurável. Arrebentando no peito os arames-farpados, rasgando no meio o front, arrastando-se pelas trincheiras, até cair no meio de lugar-nenhum.

Então a solidariedade surge quase que milagrosamente, belíssima cena em tons de cinza, profundo diálogo entre jurados inimigos. E o garanhão é desenrolado de seus freios e bridões de metal. E não acaba aqui.

Seu dono está perto, cego pelo gás, e ele passa ao lado, para ser sacrificado. Então, um som. Vale lembrar que todo animal de estirpe, assim como todas as famílias nobres, têm um sinal próprio, um assovio. E ele atende ao chamado de seu dono original. É de arrancar pica-pau do toco. O reencontro doloroso, emocionante, para ambos e todos ali presentes. Tendo o fim da guerra por testemunha.

Mais um leilão. Mais um lance. Mais uma batalha. Palavras de entrega e paixão, momentos de pura lembrança e a justiça é feita. E então, já em casa, nos campos elevados de Devon, o filho a casa retorna. Montado. E você, cinéfilo; desidratado de tanto chorar.

O que há de bom: animais espetaculares, cinegrafia sem defeitos e bela reconstituição da época

O que há de ruim: talvez exagere no melodrama, não sei, eu fui pescado desde o início, fui criado em Goiás, montando

O que prestar atenção: Finders Key é o nome de um dos 14 cavalos utilizados na filmagem, além do meu predileto; o Aroma

A cena do filme: pai e filho se reencontrando, isso sempre me desanca

Cotação: filme ótimo (@@@@)

COBRA

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Quinta está no ar, cinema: AS AVENTURAS DE TINTIM

Mais uma vez o cinema trás um personagem canino maravilhoso: Milu. Sem ele o Tintim nada seria. Titio COBRA coloca o cão no devido lugar e desfia sobre o filme com maestria. Ele achou ótimo, eu ? Excelente!

Úrsula Maff

As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne

Quando estudava francês e cada vez mais fascinado pela língua, pedi a minha professora Lilou um livro. Ela disse: leia Tintim. Entrei num universo detalhista, colorido, que refletia um pensamento hora colonialista e estereotipado das primeiras edições até uma riqueza de detalhes e filigranas que somente Spielberg conseguiria colocar nas telas.

A escolha da técnica de captura de movimentos e performance através da computação gráfica foi perfeita. Parece teatro, e o desenho do Hergé (belga que criou o Tintim em 1929) permanece fiel ao original e até com aquele ar “vintage” do cabelo e das roupas. Ops, vamos ao filme!

No meio da praça, na feirinha local, uma miniatura de um navio belíssimo: o Licorne. Tintim, um repórter, sabe reconhecer o que é bom, pois tem imensa cultura de aventuras. Os subtextos, as imagens paralelas, são incríveis, tais como os figurinos, o andar do batedor de carteiras e o cachorro Milu. Esse fox terrier branco merece uma resenha só para ele, de tão importante que é, e também de suas estripulias constantes. E o rapazinho compra o modelo e quase que imediatamente surgem pessoas interessadas nele.

Segue-se então aquele ritmo frenético “spielberguiano” de ação, correria e perseguição. Onde somos transportados para o Marrocos, não sem antes passarmos por um navio a vapor gigantesco, com um comandante eternamente bêbado – no gibi ele é mais embriagado ainda – e um rival tenaz e malvado.

Aos poucos somos apresentados aos personagens secundários da obra de Hergé, tais como os irmãos gêmeos investigadores e suas falas sempre beirando o nonsense, o próprio marinheiro Haddock com sua determinação álcool-dependente e seus fantasmas familiares. Muito rico. Como por exemplo; a escrivaninha, tenho uma idêntica, de sua cabine. Ou então a sequência da tentativa de resgatar do falcão peregrino os três pergaminhos onde está a localização do tesouro...

Não há um minuto de descanso e à medida que Tintim e o Capitão tornam-se amigos, o desejo por aventuras aumenta. Até a descoberta o mistério que ronda o mapa, fazendo com que o Haddock possa rememorar sua batalha épica contra o Rackham no convés dos navios (cenas caprichadíssimas) e depois nos brindar com a mesma luta, agora atual, no cais, com aquelas enormes gruas de contêineres.

O filme termina linear e correto. E obviamente nos incitando a ler a obra de Hergé completa e esperar uma nova edição cinematográfica desse quadrinista fantástico e personagem lendário, Tintim.

O que há de bom: popularizar um personagem e autor meio que deixados de lado pelos americanos e consequentemente o resto do mundo ocidental

O que há de ruim: são três histórias diversas numa só, quem já leu, fica meio chateado

O que prestar atenção: as carteiras, os tipos de couro descritos, o interior do navio, tudo é muito, muito precioso e bem feito, um deleite aos olhos

A cena do filme: - Qual a sua fome de aventuras?

Cotação: filme ótimo (@@@@)

COBRA

sábado, 28 de janeiro de 2012

Quinta está no ar, cinema: MINHAS TARDES COM MARGUERITE

Filme de uma beleza indescritível, dedicado aos amantes da leitura e da verdadeira amizade.
Cães são amigos e amam este tipo de filme. Cães também apreciam literatura.

Leiam a resenha do titio COBRA.

“Minhas Tardes com Margueritte”

Eis um filme para levar sua mãe, seja ela como for. Carinhosa ou ausente, dedicada e presente, dispersa ou controladora. Não importa, desde que vá. O efeito será imediato. Eu que fui criado em volta dos livros, com ambos os pais muito cultos e leitores ardorosos, vibrei.

A primeira cena em que o mastodonte do Gerard Depardieu encontra-se com a delicada senhora no parque é incrivelmente bem construída. Desde a câmera que capta cada pombo com suas características intrínsecas até o diálogo insólito e a cumplicidade imediata que se estabelece entre ele, o jovem – para ela, é claro – iletrado e tosco com a anciã vivida, sozinha e de um francês quase que acadêmico.

O perfil que se abre do sujeito é imenso. Vive com a mãe rude como ele, bêbada, fumante e apegada ao passado quando era fogosa e ardente. Suas lembranças de escola são funestas. Um professor que rima palavras que ele desconhece e que o encarna, e difama a cada aula. Uma agressão fortuita de um dos vários amantes de sua mãe (e nesse momento foi o único em que ele se lembra que ela o defendeu) e a eterna dificuldade com as palavras e as letras.

Sua vida é cheia de bicos. Entretanto sabe lidar com as pessoas, pois diante de sua simplicidade quase asinina – veja sua opinião quando o garoto argelino larga sua amante de 50 anos – ele agrada. O modo como age na feira, e em particular com seu jardim e a velha mãe vagabunda são de tocar o coração. Ele é gentil com todas, a característica dos homens bons. Inclusive sua namorada percebe claramente o quão valioso ele é.

Do outro lado uma mulher sólida, morando num asilo, e que encontra naquelas tardes um novo estímulo. Seu pigmaleão literário. Cada palavra é tão bem utilizada que imagino o roteirista corrigindo cada fala da empertigada lady. Seus trajes são elegantes, contidos. Seu andar é vacilante, mas a postura ereta, retilínea. Quero chegar lá assim...

Contudo o que mais me apraz ao vê-la é ouvi-la. Seu presente inicial é “La Peste” de Camus. Livro que tive que fazer uma extensa resenha. Depois ela lhe entrega um Petit Robert, dicionário trivial francês. Podemos conhecer um homem pelo número de dicionários que ele tem. E apesar do conteúdo belíssimo deste personagem, o Germain, ele cresce de maneira incomensurável quando começa a ouvir e a ler.

O filme torna-se então uma ode a leitura, aos mundos que os livros podem nos levar. E sem pieguice alguma, é de emocionar, de chorar.

O filme parece tomar contornos tristes e fatalistas, mas nada mais é do que o reflexo da realidade. Dura e inevitável sina do destino, o tempo. Inexorável. Mas as atitudes que tomamos para – ao menos – fazer com que seja amainado o sofrimento, é que nos tornam amorosos e humanos.

O que há de bom: relações de filho e mãe, postas em julgamento

O que há de ruim: não trás a lista dos livros citados e nem dos autores, uma bela aula

O que prestar atenção: nem tudo que queremos está nos dicionários, por isso a necessidade de criarmos o nosso próprio, com as nossas significâncias

A cena do filme: as falas dele com o pretenso intelectual da turma, são impagáveis

Cotação: filme excelente (@@@@@)

COBRA by Úrsula Maff

domingo, 8 de janeiro de 2012

Quinta está no ar, cinema: ASAS DO DESEJO




Meu titio COBRA escreveu há tempos esta resenha, e eu adorei. Acho que anjos existem. E são vários. Muitos de quatro patas, raros de duas. A única coisa em comum é que ambos têm asas!


“Asas do Desejo”
O filme é de 87, em Berlim, a tradução literal seria “O Céu Sobre Berlim”. E começa em P&B com um poema belíssimo de Peter Handke, “Song of the Childhood”. Dois anjos observam a cidade, de cima e por dentro. Eles ouvem os anseios humanos, eles ocasionalmente os tocam, se aproximam e sutilmente dialogam, colocando idéias e ideais de sonho e resolutividade em suas dúvidas.
Não há diálogo. Somente pensamentos. As crianças podem senti-los e sorriem, em nenhum momento percebemos se elas realmente podem vê-los. Assim como os anjos caídos, personagem de uma carga poética incrível, de Peter Falk sendo Colombo, o ator vivendo seu personagem. Este apenas percebe a presença angelical. O mundo é cinza para os anjos e colorido para os humanos.
Mas é mais profundo do que isso. Eu diria que no momento em que existe amor, tudo se torna colorido. Como na primeira cena a cores, reparem. Já que no final ele “converte-se” em humano. Aliás, esta dubiedade de ser anjo e ajudar, mas nunca ter desejo e saborear as pequenas coisas que a vida nos dá é o cerne do filme e do roteiro.
Vejam por exemplo as crianças – e porque não citar também os animais, com os quais tenho inteira identidade e acerto – elas são as que fazem as perguntas mais difíceis e filosóficas do filme: - quem somos de onde viemos e para onde vamos? E o anjo caído quando enfim se liberta da vida monocromática, sorri à toa, esfrega as mãozinhas e tudo mais... E o que são os grandes homens afinal, simplesmente meninos crescidos que guardaram dentro de si a espontaneidade infantil e a capacidade de sonhar?
Você mulher, que dá uma guinada em sua vida e deixa de sonhar, relega a poesia de lado, abandona o irracional, não percebe que se mata a cada dia? Por outro lado, você rapaz, que só é o que os outros mandam ser, que obedece cegamente suas fêmeas – sejam a mãe, a esposa, a irmã e as vadias – não percebe que sua espiritualidade perde-se na sua inocência?
Ninguém vê isso. Os anjos, sim. Mas um deles deseja e o desejo é o que move o mundo. Um lápis pode ser pego na sua essência, um livro – tal como o excelente Hommes de XXe Siècle de August Sander, que o velho folheia na biblioteca – idem, mas o amor é sinônimo de humanidade.
Nick Cave toca, uma tríade que vai da igreja de coral ao rockão visceral. A música, sempre é dos deuses. Assim como o saber idem. Ou você ainda discorda que uma biblioteca é onde se encontram mais anjos, sejam caídos ou não?
O final é auspicioso. Deleite de monólogo, já que somente ela fala e ele a beija. Deixando o anjo de lado o visual de detetive dos anos 50 para o colorido atemporal da paixão.
O que há de bom: roteiro poético, exige calma e atenção
O que há de ruim: além do alemão que sou fraco e do japonês que nada sei, ouço inglês, espanhol e francês no filme, o que às vezes me impede de ouvir as vozes do coração
O que prestar atenção: o filme é baseado na poesia de Rilke “Elegias a Duíno”
A cena do filme: a procura da praça “Potsdamer Platz” pelo velho em que ela torna-se quase que uma lembrança imediata e a paisagem das crianças ali brincando, o que reforça que o verdadeiro sentimento, é atemporal
Cotação: filme excelente (@@@@@)

COBRA

Obs: além das bibliotecas, anjos também são fáceis de serem encontrados em Zoos, escadarias e matas ao redor das cidades, amando

sábado, 3 de dezembro de 2011

Quinta está no ar, cinema: CHAPLIN

Criativo, inigualável, engraçado, amigo dos cães. Leia um pouco sobre a biografia do humorista mais amado entre os caninos.

“Chaplin”

O que une Chaplin, Picasso, Casanova? Resposta simples: o grande número de parceiras. Resposta complexa: a intensa fome de viver, a criatividade explosiva, a longevidade, a manutenção da lucidez, a produtividade. O que o filme mostra desde pequeno é um Charles Spencer Chaplin Jr talentoso, sem medo de se expor. Um homem completo com o coração de menino. A vida é maravilhosa se não se tem medo dela.

Um irmão comum, uma mãe com distúrbios mentais. Aonde iria esse homem que consegue dar cambalhotas de frente e de costas, que ri de si mesmo, que vê o outro como um ser completo e que não consegue ficar parado? A persistência é o caminho do êxito.

Ele foi para os palcos, imitou bêbados e criou o mais célebre personagem do cinema, Carlitos, ou “The tramp” ou Charlot, depende do país. Mas a composição de botas longas, bigode, chapéu coco e aquele andar de marinheiro arqueado é universal. E o filme mostra de maneira sutil cada detalhe dessa criação ímpar. Se o que você está fazendo for engraçado, não há necessidade de ser engraçado para fazê-lo.

Ele granjeou risos em todas as platéias, mas a maior identificação foi com o proletariado. E Charles sabia disso. Contudo outras pessoas também, inclusive o poderoso J. Edgar Hoover viam-no como comunista. A perseguição foi implacável. Entre um casamento desfeito e outro refeito, Hoover tentava pegar o “senhor perfeito”. A humanidade não se divide em heróis e tiranos. As suas paixões, boas e más, foram-lhe dadas pela sociedade, não pela natureza.

Cada gesto criado por Robert Downey Jr está verdadeiro. Seu Chaplin é monumental. E quando ele estuda Hitler para compor o personagem – que fala! – do filme “O Grande Ditador” sua capacidade interpretativa sobe alto. Muito alto. E depois das sugestões de Douglas Fairbanks (seu amigão, e eu garanto que todo homem de valor tem um amigão do mesmo naipe) ele vai às telas. Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.

O cinema deixou de ser mudo e Chaplin se adaptou, ou será que o cinema inteiro se adaptou a ele? Cantarolando “Smile” em “Tempos Modernos”, a música é dele e não a letra... Charles vai envelhecendo e é expulso do país que escolheu para viver. Nada mais injusto. Sua última mulher lhe dá oito filhos e a alegria de viver para sempre. O amor perfeito é a mais bela das frustrações, pois está acima do que se pode exprimir.

Morre no frio, na montanha, mas não recluso. Pois não existe uma pessoa no mundo que não tenha visto a silhueta magnífica desse impoluto homem. A única coisa tão inevitável quanto a morte é a vida.

O que há de bom: o roteiro que nos permite ver a grandeza desse homem especial e a bela atuação do jovem Downey

O que há de ruim: Downey insiste em pegar os objetos e cumprimentar as pessoas com a mão direita, Chaplin era um canhoto explícito, “gauche na vida”

O que prestar atenção: nenhuma cena de xadrez, uma das paixões de Chaplin, mas as roupas que ele veste no filme são estupendas

A cena do filme: quando os cabelos ficam brancos e o brilho do olho não muda absolutamente em nada

Cotação: filme ótimo

Obs.: as frases finais de cada parágrafo são todas de Charlie...

domingo, 6 de novembro de 2011

Quinta está no ar, cinema: ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ

Filme marcante, onde o titio COBRA faz várias referências caninas...


“Onde os fracos não têm vez”

Os sentidos são cinco. Aliados ao sexto, que poucas pessoas têm. Valendo-me de todos eles, o filme fede. Pois se no começo um cachorro manca com a pata quebrada, é óbvio que no final o Cão irá fazer igual. E somente por isso essa película pode ser considerada sensacional.

Quem atira e mata cachorro ou qualquer bicho que seja, não vale nada. Llewelyn - arrebentando no papel o bigodão de Josh Brolin - Moss está caçando (?!) no meio da solidão texana. Encontra uma carnificina, que até agora ecoa nos meus ouvidos os tiros de variadas armas e calibres, entre o fornecedor e o comprador de drogas. Somente um sobrevivente. Que pede água. Cada diálogo, cada som da Natureza, é um primor. A direção capricha nos ínfimos detalhes. Pedi para um grande amigo cego ver o filme. Ele adorou o que ouviu.

Ele, Llewelyn – que nomezinho difícil, assim como todos do filme, cheio de significados e referências, depois explico- retorna para ver o sujeito que estava morrendo. Um grande erro e único gesto humano no filme inteiro. E lá está o seu perseguidor. Com um cabelo nojento alisado, botas limpíssimas, uma arma de pressão de matar boi no Goiás Carne e a maldade, visivelmente transbordando do coração. Mais uma perseguição e tome bala em fantástico cachorro, Pit Bull Red Nose, nadador. Quase saí do cinema, de tão puto que fiquei. Alguém que reduz humanos a animais e vice-e-versa, é monstro.

O gosto de sangue escorre nas telas. Nada de risadas malévolas. Ou gritos de terror. Nenhum “gore”. O já clássico diálogo cheio de fel entre o matador profissional, Carson Wells (perfeito o Woody Harrelson) e Anton Chigurn (indescritível Javier Bardem) é de uma sutileza figadal que até assusta se mal traduzida for. Mas não o é. Então fica claro que o sujeito é mau mesmo, mas não é burro e muito menos inconseqüente. Ele treina seus gestos, ele calcula tudo. Ele é amargo como tamarindo azedo de fevereiro.

Toquemos a pele de quem morreu. Ela é fria. E frio é o resultado do narrador presente,o xerife Ed Tom Bell (o descaroçado Tommy Lee Jones). Sua visão de mundo é pessimista, triste, marmórea. O mundo ficou áspero. Sem dedos. Sem a palavra “soft”. Ele é o retrato em branco & preto do título original, “No Country for Old Man”. Sua cena vendo o que o assassino viu, tomando o leite, ou então a sombra de caubói ao entrar no quarto de motel, tudo muito dérmico. Aliás, epidérmico. Profundo.

Meu sexto sentido revela que o final não será exatamente o que a galera mediana e obtusa deseja. Adivinho o atropelamento facilmente. Quem vai sempre ao cinema, sabe das coisas, né? E a discussão profunda entre os garotos sobre o ato de dar a camisa, receber o dinheiro e dividir este lucro, revela no meu íntimo, que o mundo está mudado.

O que há de bom: direção beirando a perfeição, pelo menos cinco atores estão no melhor de suas atuações, diálogos “increibles” e sutilezas escrotificantes

O que há de ruim: ainda não sei, vou assistir duas vezes, com meus seis sentidos de COBRA

O que prestar atenção: em tudo, em tudo, redobrada atenção, até nas placas dos carros, no número de cervos sendo caçados, no figurino de cada ator e seus respectivo nomes

A cena do filme: difícil, mas vamos lá... que tal a lógica sem senso dele, ao encontrar com a garota Carla Jean e acusar o seu rival de que ele a entregou em detrimento do dinheiro

Cotação: filme excelente (@@@@@)

Giovanni Cobretti, o COBRA


by Úrsula Maff

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quinta está no ar, cinema: BONEQUINHA DE LUXO

Olá amigos,

Cão também é fashion. Nesta resenha do titio COBRA, mais uma vez vemos o bom gosto à toda prova. Filme emblemático de Audrey Hepburn, se eu fosse humana, seria como ela.

Úrsula Maff


“Bonequinha de Luxo”

Cena inicial, manhã de domingo em Nova Iorque, uma mulher muitíssimo bem-vestida desce do taxi e vai mirar as jóias da mais célebre casa do mundo neste quesito, Tiffany´s. Ela vira-se: misto de mulher e menina, rosto fino, gestos delicados, um sorriso arrebatador mesmo com a boquinha fechada, as costas, o cabelo volumoso preso, os óculos escuros meio-gatinho, o sonho na boca que até cheia é linda! Ela; se não é perfeita, chega muito perto. Audrey Hepburn é um doce.

Até o nome da personagem é charmosésimo: Holly Golightly, ou Lula Mei Barnes, uma menina que se casou aos 14, no interior, mudou-se para a capital no intuito de virar artista e depois caiu na vala comum da prostituição. Mora no apartamento de baixo de um japonês chato que não merece mais do que uma aparição ou duas no filme inteiro. E recebe em casa com a maior naturalidade um sujeito que nunca viu e em poucos minutos ele sabe tudo da história dela. Desde o gato até a bagunça organizada em que ela vive. Seu segundo vestido “um pretinho básico” torna-se um imediato objeto de desejo mundial, apenas pelo segredo do chapéu com apenas um lenço esvoaçante... Audrey é moda.

Lendo assim fica inverossímil, mas a atuação magnífica e sedutora de Audrey, faz-nos imaginar exatamente aquilo que qualquer homem pensaria. O que faz uma mulher como essa numa vida desse jeito? Ela; na segunda fala, já no apartamento dele – que também é remunerado pelas mesmíssimas razões que ela – sua naturalidade coloca-a deitada no peito nu do novo amigo. E esse resiste ao irresistível. Audrey é mágica.

Num vai e vem de festas e paqueras de milionários ela mostra uma máscara defensiva gigantesca. Uma barreira imensurável entre seus verdadeiros e ocultíssimos desejos, e a vontade de ficar rica a qualquer preço. A cena da festa, com a piteira, mostrando as figurinhas típicas de uma boca livre qualquer é apenas um desfile de sua beleza inexplicável. Hepburn torna-se eterna.

O sujeito está apaixonado, louco por ela e quando o antigo marido aparece, num “savoir faire” quase que impossível, ele a ajuda. Saem juntos, ela bebe muito e quase me esqueço da cena em que ela canta “Moon River”, simplesinha, de toalha na cabeça e calça jeans, mostrando umas pernas grossas e fortes que não ocultam o seu passado de bailarina. O tal escritor, leva um fora memorável. Hepburn é difícil.

Então, no outro dia saem para passear e nos deleitamos com uma das mais belas sequências de namoro do cinema. Aquele leve, descompromissado, quase infantil, cheio de brincadeiras, ela mostra todo seu arsenal de caras e bocas em que até cego ficaria maluco. Um beijo. No outro dia ele vai ao seu encontro. E ela sabe ser séria quando quer, e dura também. Audrey é um enigma.

Um novo marido, um novo país, o Brasil. Imaginem como seria exótico, vir para cá em 1961! E o cara agüenta aquilo tudo. Mas pelo menos vira homem e desiste de sua amante que o sustenta e volta a escrever. Um novo escândalo. Como mulheres encantadoras têm uma facilidade para se envolverem em roubadas, não? Audrey é livre.

Começa a chover, ela se desfaz do gato que com ela coabitava, como se recusasse a ser quem é. Selvagem, uma força da Natureza. Ouve então a verdade do único que a enxergou como um ser humano, uma pessoa capaz de amar e ser amada. Toca Moon River e eles se beijam. Até Audrey Hepburn, é humana.

O que há de bom: uma mulher em todo seu esplendor, fazendo a prostituta mais bela e bem vestida de todos os tempos

O que há de ruim: a presença inoportuna de Mickey Rooney no dispensável papel de senhor Yonioshi

O que prestar atenção: e imaginar que esse papel seria de Marilyn Monroe, e a música de Henri Mancini seria de Gordon Jenkins, impossível!

A cena do filme: cada aparição - com um novo figurino - de Audrey Hepburn ficará na memória fashion de todas as mulheres da época, e para os homens apenas ela; e mais nada

Cotação: filme ótimo (@@@@)

COBRA

sábado, 24 de setembro de 2011

Quinta está no ar, cinema: O TIGRE E O DRAGÃO

Mais uma vez o titio COBRA nos brinda com uma resenha apaixonada. Ele a escreveu no ano do lançamento do filme, quando ainda não sabia falar mandarim.

Reparem a sua enorme pulsão ao ver algo tão diferente e criativo.

“O TIGRE E O DRAGÃO”

Este não é para todos, sinceramente. Não sei falar Mandarin, mas ficaria muito palha se fosse em inglês. Não luto muito bem Kung Fu, mas estive em Guangzhan, China. Terra de Yuen Wo Ping, mestre de todos nós. Até do Jackie Chan, único que chegou perto de um dos meus ídolos, o Bruce Lee. Para ver essa história você é obrigado entrar em devaneios. Possuir ainda pés de criança que voa. Acreditar no amor. Coisas assim, sei lá.

Duas mulheres belíssimas. Zhan Zi Yi faz a rebelde sem causa – Jen. Filha do governador, prefere ouvir os ensinamentos de sua lacaia ( ou lacraia ? ) Jade Fox – raposa de Jade. Com certeza ela é bailarina profissional, pois seu equilíbrio na haste do bambú só se consegue com muito “plié”. A outra arrebanhou-me o coração por seu encanto contido, seu olhar magistral de arrebatamento e doçura. Algo que apenas as grandes mulheres possuem. Michelle Yeoh no papel de Yu Shu Lien é a pessoa sensata e vivida. Tem seu grande amor tão perto e tão longe, no melhor que um folhetim pode nos mostrar. Flor de lótus.

Só de colocar duas gatas trocando golpes ( ou seriam coreografias ? ) e bailando sobre telhados e derrapando em paredes, me possuiu. O COBRA gosta de mulher suando. Realmente este século vindouro é delas. A vitória da sutileza contra a força. A derrota da objetividade perante o inefável. A insustentável leveza do ser. Viajei !

Tema principal não são as lutas ou o método Wudan - leia o livro de Du Lu Wa. É o amor. Amor de homem e mulher, de mãe e filha, amiga e irmã, pai e filho, mestre e aprendiz. Todos em um caleidoscópio visual. Passando pelo deserto mongólico da região de Sinkiang, até as florestas de coníferas e os bambuzais. A China é enorme e linda!

Ver estrelas no céu do deserto de Mu Us ( logo depois da Grande Muralha ) com sua amada é perfeito. Todas as pessoas especiais tendem ao isolamento. Somente sendo uma águia para entender. Ter asas é uma questão de sobrevivência no mundo de hoje. O casal de jovens percebe isto.

O outro casal apenas vislumbra o que poderia ter sido e não foi. Resta apenas imaginar o que será quando se encontrarem no Tao, o Caminho. É uma questão de direcionar o seu Chi, a energia vital. Mas a troca de carinho, o suave roçar de mãos, diz tudo. Rapaziada, amar não é só sexo não!

Muitos possivelmente deram risadinhas quando os lutadores sobrevoaram vários Cantões da China. Pobres de espírito... Não entenderam a metáfora vigente. E nem vão entender. Estão sob o efeito pós-Matrix. Orientado pelo mesmo mestre. Mas aqui ele se soltou. O filme não é exagerado e nem mentiroso. Você que caçoou é que tem o coração diminuto e a imaginação rasteira.

Final estóico. Típico da filosofia oriental. Sem muitos artifícios, de acordo com todo o desenrolar.

O que há de bom: as coreografias, a China no cinema, coisa rara

O que há de ruim: nós não conhecermos a língua mais falada do mundo e muito menos os seus ideogramas

O que prestar atenção: Li Mu Bai é o herói dos pés de barro, mesmo sendo invencível e possuidor da espada, não soube em momento algum ir direto ao que interessa: - Shu Lien.

A cena do filme: ele dando uma sova nela com um ramo de árvore qualquer e as armas usadas na contenda da academia

Cotação: filme excelente ( ***** ) só serve pra quem ainda tem um menino dentro de si e que sonha ...

C.O.B.R.A.

domingo, 4 de setembro de 2011

Quinta está no ar, cinema: 007 O ESPIÃO QUE ME AMAVA

Já postei a música e não resisti em escolher a resenha do titio "COBRA" para emoldurar meu blog. Ele exalta o 007 e papai ama este personagem. Além da resenha em si, veja a letra da música na íntegra, além das descrições das locações e dos carros.


“007 – O Espião que me Amava”

1977. Roger Moore já havia consolidado seu estilo e o papel de James Bond, mas faltava algo. E então, logo na abertura – gravada no Canadá – em que ele fuzila de costas o seu perseguidor, esquiando em alta velocidade após um twist carpado e cai no vão austríaco com um antigo modelo de pára-quedas T-10 (aquele redondinho) com as cores da Inglaterra e toca o pianinho inicial da música: Nobody does it better. Makes me feel sad for the rest. Nobody does it half as good as you. Baby you're the best. Posso dizer com certeza absoluta que esse é um filme especial.

Major Amasova é vivida por Barbara Bach. Primeira bondgirl que interage de igual para igual com James. Ela é dura, linda, sexy – imagina um casal andando pelo deserto com roupas de gala sem perder a classe - e tem o mesmo treinamento dele. I wasn't looking, but somehow you found me. I tried to hide from your lovelight, but like heaven above me. The spy who loved me, is keeping all my secrets safe tonight.

Estamos em Abu Simbel, depois em Luxor, no Cairo e no meio desses magníficos e gigantescos monumentos eis que surge um rival à altura (desculpem-me o trocadilho, mas não resisti) de Bond: Jaws. Richard Kiel em momento mágico, é o dentes-de-aço, com seus 217 cm e fácies acromegálica mete medo em qualquer um. And nobody does it better. Though sometimes I wish someone could. Nobody does it quite the way you do. Why d'you have to be so good?

Se os personagens são fascinantes, a trama não deixa a desejar, pois no auge da guerra fria, agora submarinos nucleares são roubados por um louco visionário que deseja construir um mundo subaquático. Sua base é na Sardenha, vejam o diálogo entre Bond e Amasova sobre o local, delícia. Vamos direto para uma das minhas ilhas prediletas da Europa... The way that you hold me, whenever you hold me. There's some kind of magic inside you, that keeps me from running, but just keep it coming, how'd you learn to do the things you do.

A perseguição do carro de Bond, um Lotus branco, o mitológico Esprit S1 Turbo é de cair o queixo. Motos com sidecar, um Ford Cortina MK IV 2.3 Guia, helicóptero –pilotado pela deliciosa Caroline Munro, a Naomi - e espetacular salto no mar, a incrível transformação do bólido em um, pasmem, submarino! And nobody does it better, makes me feel sad for the rest. nobody does it half as good as you.

Obviamente que existirá um final nisso tudo, mas qual? Já que o dentes-de-aço parece ser indestrutível, o vilão Stromberg muito sapiente e preparado e a própria Amasova que ao saber que James matou seu antigo amante promete liquidá-lo ao final da missão. Entretanto James Bond mostra-se imune a todas as ameaças e em outra cena marcante, atira no lunático-aquático, joga Kiel aos tubarões e, ao deitar-se com Amasova, ela sucumbe aos seus encantos atirando na rolha do champagne, que novamente é provavelmente um Dom Pérignon '52 já que no filme anterior ele saboreia um '64 apesar de preferir a safra de '62. Baby baby Darling, you're the best, baby you're the best!

O que há de bom: música tema envolvente com letra que traduz o sonho de todo homem, além de personagens e locações marcantes

O que há de ruim: eu tinha somente 14 anos nessa época e nunca imaginaria o quanto esse filme depois significaria, vendo-o ali, no Cine Ouro, em Goiânia

O que prestar atenção: primeiro filme em que o próprio ator está representado no clipe da música

A cena do filme: ele se apresenta todo pomposo para o dono do clube local, no Cairo, James; James Bond e o sujeito responde; e daí?

Cotação: filme excelente (@@@@@)

COBRA


by Úrsula Maff

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Quinta está no ar, cinema: PLANETA DOS MACACOS

Aqui o titio COBRA escolhe um filme de sua infância. Filmes bons são atuais. O que os homens estão fazendo com o seu planeta? Que destino levará a espécie humana com esse consumismo desenfreado? Seu herói, o Taylor, já não existe mais... Que tipo de homem se faz hoje?

“O Planeta dos Macacos – 1968”

São três companheiros e uma mulher. Viagem interplanetária. Nave com sistema de morte aparente. Queda num lago no meio de dum deserto. Em qual planeta chegaram? Desconhecem. A data? Mais de dois mil anos à frente.

A mulher morreu velha e os rapazes atravessam a inóspita região entre discussões filosóficas e o desejo de sobreviver. Contudo o caminho vai ficando mais ameno, uma pequena plantinha aqui. Depois outras e finalmente um lago com cachoeira e vegetação luxuriante.

Um banho é indispensável e após o diretor mostrar o rosto de cavalo do protagonista, colocá-lo fumando um charuto com sua voz profunda, ele finaliza com o sujeito de 45 anos saradíssimo, nú e sem essa musculatura falsa de academia de hoje. Ele é Charlton Heston, personagem: Taylor.

Numa sequência só, suas roupas são roubadas por humanos que não falam e agem como macacos. E num milharal, montados a cavalo, com rifles e redes, gorilas que falam capturam os grupos atônitos e sem ação. Taylor leva um tiro no pescoço e é capturado, junto com a belíssima “Nova”. Ele não consegue falar. Mas seus olhos brilham diferente dos demais.

O planeta é dos símios. A liderança é feita pelos sábios e articulados orangotangos, representados pelo inteligentíssimo Zeius, a opressão e o trabalho pesado está a cargo dos gorilas e o povão, a classe média que ocasionalmente um ou outro se destacam, no caso o antropólogo Cornélius e a psicóloga veterinária Zira, são os chimpanzés.

Novo enfrentamento de Taylor com os sábios locais, onde pela primeira vez ele fala. E seu discurso é cruel. Há um tribunal envolvendo os orangotangos e os chimpanzés e o acusado Taylor não tem direito de resposta. Mesmo assim escreve. O desconforto é geral. Zira revela-se uma insurgente nata e Cornélius revolta-se com seu esforço em estudar e pesquisar, e ver a verdade sendo manipulada e distorcida pela classe dominante.

Com a ajuda de seus únicos amigos, Taylor consegue escapar. Vão para a zona proibida onde a ciência mais uma vez terá um embate contra a religião. Uma bonequinha humana – que fala- é a prova cabal de que em um determinado tempo existiu uma sociedade mais avançada que a dos primatas atuais e os líderes eram humanos.

O diálogo entre Taylor e Zeius é áspero e cheio de acusações entre ambos. O que a sociedade fez com a civilização? Qual será a verdadeira alma dos homens? E Zeius deixa-o ir para que ele veja onde está. A surpresa é muito grande para toda a platéia e inclusive Taylor, que desaba de joelhos e revoltado. Muito triste ver um homem como aquele ter suas convicções destruídas e confirmadas num só instante. Filmaço.

O que há de bom: Charlton Heston em toda sua magnífica postura corporal e um enredo criativo, instigante e complexo

O que há de ruim: demorou anos para passar na TV brasileira e depois suas sequências (existem mais quatro) foram decaindo a magnitude inicial

O que prestar atenção: Charlton Heston, Terence Hill e John Weismuller foram meus ídolos da infância, homens marcantes, o primeiro arquétipo da autoridade (meu pai) o segundo da alegria de viver (eu) e o terceiro a perfeição aquática de corpo e alma ingênua (meu filho) e só hoje percebi isso

Cena do filme: o beijo de Taylor em Zira, mil interpretações em uma só imagem que emudece as palavras

Cotação: filme excelente (@@@@@)

COBRA


By: Úrsula Maff



domingo, 24 de julho de 2011

Quinta está no ar, cinema: ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO

Este filme tem uma mensagem de resistência de amor a suas origens. Cães gostam disso.
Escrita a resenha pelo titio "COBRA", ele começa com um parágrafo falando de histórias em quadrinhos e disserta sobre leituras. Gosto tanto da cultura "pop" como da literária. Ótimo texto.

Aproveitem...

“Enterrem Meu Coração na Curva do Rio”

Você lê revistas em quadrinhos? Não? Está na hora de começar. Sugiro que leiam – os aficionados pelo velho Oeste e a cultura indígena – Mágico Vento. O autor é Bonelli e existe em português. E o que isso tem a ver com esse filme? Simples, o gibi retrata muito melhor do que vários livros, ambos os massacres e suas razões políticas. O primeiro de Little Big Horn – onde morre o General Custer, enviado para se ferrar – e o segundo do riacho Wounded Knee que ficava no meio da reserva Pine Redge.

No final do século XIX, os índios estão reunidos e encurralados. Não há mais pastagens para todos. O homem branco, igual a gafanhotos, vem invadindo e destruindo o que pode. As estradas de ferro trazem atiradores que matam -por esporte- milhares de búfalos, a fonte protéica por excelência da maioria das tribos. Apenas Touro Sentado não participa das assembléias e não assina o tratado das reservas. Nuvem Vermelha, mais velho, concorda. Ambos são sábios e grandes líderes.

Paralelamente a história de Ohiyesa é descrita. Filho de um índio com uma branca, é buscado em sua tribo Sioux pelo pai, vai ser educado como branco. As cenas do trem são muito bonitas, assim como o dia-a-dia indígena. Fotografia cheia de focos e desfoques, com enquadramentos ricos em diagonais.

Ohiyesa torna-se Charles Eastman. Fica amigo do senador, é tido como exemplo. É um médico. Enquanto isso Touro Sentado faz um périplo pelos EUA, levando sua tribo até o Canadá. Lá é aceito para depois ser rechaçado. Sua autoridade é posta em dúvida, ele é o chefe.

Eastman vai para uma reserva onde está Touro Sentado, vê de perto o sofrimento de sua raça e o diálogo áspero com o Senador, que um dia o fez médico e deu-lhe vida confortável é poderoso, marcante. O choque está feito. Touro Sentado enfrenta a autoridade local, não respeita as regras, mas sem violência. Sua presença moral é imensa. Um homem possui três grandes forças: a física, a mental e a moral. Touro Sentado é um dos raros que exibe todas sem oprimir ou humilhar ninguém.

Os sioux estão tristes, quase patética a cena da “caça” de um jovem no curral dos touros. Cheio de significados e significância a breve discussão entre Touro Sentado e o chefe da reserva. Além de inteligente, Touro Sentado dispõe de fina ironia.

O filme é triste, assim como o olhar dos índios. Toda uma cultura e civilização destruída por outra. Quem é mais moderno e justo? Aquele que vive em igualdade, abolindo a propriedade privada – nem existe um nome em quaisquer línguas indígenas para isso – ou aquele que expulsa o rival, barganhando com dinheiro e poder os interesses escusos que estão ocultos? Interesses maiores do que a Black Hills, até.

Termina de maneira melancólica. Não tem jeito. Mas o registro é tão belo e as discussões tão atuais, que merece ser visto.

O que há de bom: fotografia bela e temas bem pertinentes à história americana

O que há de ruim: o livro é famoso e o li na minha adolescência, mas o filme é recente (essa juventude inculta que nada lê pelo menos veja) e pouco sucesso fez

O que prestar atenção: a palavra assimilação não é sinônimo de imposição

A cena do filme: a imponência de Touro Sentado, ao censurar os jovens só com olhar, depois de ouvir fofocas a seu respeito

Cotação: filme bom (@@@)

Giovanni Cobretti, o COBRA

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Quinta está no ar, cinema: ILHA DAS FLORES

Esse filme é um curta-metragem de 1989, do Jorge Furtado. Muita gente pensa que eu sou um cão ecológico. Mas eu sou é mesmo selvagem. Entretanto aprecio muito as causas conservacionistas, pois elas são as que mais se aproximam da minha maneira de ver e pensar (sim! cachorro pensa!) .

Leiam a resenha do titio COBRA e se possível veja ou revejam a fita. Está mais atual do que nunca.

“Ilha das Flores”

Ocasionalmente sou cobrado e criticado por não escrever sobre curtas-metragens. Realmente eu não o faço, mas isso não significa que não os veja e muito menos ainda que não os admire. Este, no caso, é imperdível. Na minha humilde opinião o melhor de todos os tempos do Brasil. Didático, criativo, belo, veloz, midiático e profundo. Querem mais?

Convidado para dar uma palestra de abertura da uma turma de ensino médio, pela professora Cynthia Alexandra, levei o filme. Por razões técnicas, não passou. A cena inicial dos tomates, do japonês e a conceituação do ser humano como uma animal diferenciado é perfeita.

Depois disso, conceitos e imagens são arremessados numa velocidade vigorosa e necessária. E a cada um deles minha atenção aumenta e meu critério de julgamento e crítica, idem.

Flores, perfumes, compras. A cadeia de produção está quase toda ali mostrada. Desde a matéria–prima, passando pela transformação, acúmulo, venda e utilização. Até o descarte, que é o lixo.

Em seis minutos de projeção fico impressionado com a quantidade de conceitos, todos adequados e de grande capacidade de discussão e reflexão. Os porcos aparecem e obviamente cercados de crianças e o lixão. Todos sabem o que vai acontecer e é duro.

A paulada da exclusão social é enorme. E do ponto-de-vista apresentado pelos autores e diretor, o Jorge Furtado; é brilhante. Qual a razão de tamanha discrepância e injustiça?

Os motes – palavras repetidas várias vezes com sentido evidente – são marcados mais uma vez. As imagens do tomate, da dona-de-casa, da Ilha das Flores, do lixo, dos porcos é muito bem colocada e os ângulos belos.

O final nos convida a reflexão e também á discussão. Será que um dia o ser humano perceberá que essa destruição ininterrupta do nosso planeta levará á nossa extinção. E; como dizem os índios lakota, da etnia sioux: “O homem branco precisa saber que não se come dinheiro, nem carros, nem eletrônicos.”

O que há de bom: criatividade e agilidade máxima em exíguos treze minutos

O que há de ruim: pouco divulgado nos lares em geral e nas escolas em particular

O que prestar atenção: quando se lê “Deus não existe”, não significa que quem filmou concorda ou não; cabe ao espectador tirar suas próprias conclusões

A cena do filme: a conexão das imagens e textos finais, já nos créditos, sobre o que é real (documentário) e ficção

Cotação: filme ótimo (@@@@)


COBRA

domingo, 5 de junho de 2011

Quinta está no ar, cinema: LENDAS DA PAIXÃO

Se eu fosse humana com certeza namoraria com este personagem vivido por Brad Pitt. O Tristan Ludlow. Mais animal do que gente. Selvagem, independente. Como sou uma cachorrinha, me contento em oferecer meus préstimos - lambidinhas, corridas, natação - em quaisquer aventuras de caça com ele.

Titio COBRA nos oferece uma resenha encantadora sobre esse filme que mostra muito das reações humanas mais típicas tais como o amor, a paixão, a família, a amizade, o ódio, a ignorância e a inveja.

“Lendas da Paixão”

Brad Pitt foi “descoberto” no filme Thelma e Louise, em 1991, e tornou-se um símbolo sexual mundialmente conhecido. Mas o que as pessoas ainda não sabiam é que este ator era também talentoso. Chega então o ano de 1994 em que no triplo lançamento de “Um Favor Indecente” (pouquíssimo visto no Brasil) e “Entrevista com Vampiro” e “Lendas da Paixão” Pitt mostras as três grandes facetas que o acompanharão para sempre: o cômico, o outsider e o selvagem. E sempre belo.

Aqui, aos 31 anos, no auge de sua realeza loira, com longas madeixas cuidadosamente clareadas e penteadas, ele é o filho do meio de nada mais nada menos do que Sir Anthony Hopkins: o indomável Tristan Ludlow. Entre o sério e responsável primogênito Alfred e o frágil caçula Samuel, ele brilha. Irradiando força e energia, monta cavalos no estado de Montana, lida com índios que o consideram um deles e sua simples presença perturba qualquer mulher heterossexual presente.

Samuel aparece do nada com sua noiva, a metida à independente Susannah, vivida por Julia Ormond, que por incrível que pareça está feia na tela. Perdendo de longe para a menininha índia que depois viria a crescer e a se tornar a espetacular Isabel (Karina Lombard). Susannah toca o terror. Sedutora e inconseqüente, faz com que os quatro machos –sendo que três deles são alfa-dominantes – apaixonem-se por ela. Irmãos e pai disputando uma mulher é algo errado e que geralmente resulta em morte.

Samuel vai para guerra e Tristan vai atrás. Para protegê-lo. Mas mesmo sendo um animal leve, resistente e flexível, Tristan não é onipresente. E seu irmãozinho do coração bate as botas de maneira inglória.

A culpa o perseguirá até o seu fim. Agora Susannah está livre. Para homens como Pitt o acasalamento é natural e apenas uma conseqüência da atração que despertam. E assim acontece. Sua alegria é contagiante e até o sorriso do seu pai aumenta na proporção em que é feliz.

Entretanto seu outro irmão a deseja. E não esconde seu objetivo. Tristan é um ser livre. Completamente. Se quer caçar, vai caçar. Se deseja dormir, refestela-se em qualquer lugar e pega no sono. E se decide buscar a si mesmo, seus desígnios próprios jamais conseguem ser impedidos. E ele parte.

Não sem antes amarrar a fêmea em promessa de aguardá-lo. Passam-se anos. Poucas notícias, e até uma carta em que a dispensa com poucas e curtas palavras. Assim Tristan age. Incompressível para o mundo de frouxos que o cerca, inclusive seu irmão que aproveita do fato e casa-se com aquela que sempre quis ter um Ludlow, seja ele qual for.

Num dia ensolarado qualquer o chão treme, os corcéis a galope resfolegam e com sua figura jovem, o sorriso imutável, Tristan retorna. Nada mudou. Nem a paixão de sua antiga eleita, a devoção do pai, o respeito do irmão e o amor daquela que a desejou ardentemente desde sempre: Isabel.

Susannah é maninha – expressão goiana para vacas que não conseguem emprenhar – e Isabel lhe dá os filhos mais bonitos do mundo. Tristan está doce e calmo. O urso que coabita seu coração e alma está adormecido. Ele negocia com álcool. Numa época em que isto é proibido. E incomoda os valentões locais.

É incrível como um sujeito como Tristan inverte a ordem local. Sua energia incomoda, desperta constrangimento e inveja. E assim os “donos” do negócio o atacam. E –mesmo que sem querer – causam uma morte impossível de ser digerida ou perdoada. A besta hibernada há anos a fio acorda e ele ataca.

Preso, chateado, irremediavelmente marcado. Chega o dia de sua libertação e obviamente a vingança. Quando ele agride o imbecil no celeiro, ou quando pede para que os inimigos o levem do local, mas não o matem na frente de sues filhos, nota-se a imensurável nobreza de sua pessoa.

E então, no último momento, o pai -já velho e sequelado- reage. E o irmão percebe que não se muda a Natureza de um ser como Tristan e o salva. Ali, pela primeira vez o clã Ludlow está em paz. O que explica, mas não justifica a necessária partida da insana Susannah.

O que há de bom: um grande ator superando o mito da beleza e esbanjando talento

O que há de ruim: a inveja, a incompreensão e o mundo medíocre retratado em torno do solar Tristan

O que prestar atenção: pai e filho são uma instituição insondável e impenetrável, e o fim daqueles que quebram este laço é sempre trágico

A cena do filme: - Eu vou ser jornalista ou advogado ou sei lá o quê, e você Isabel, o que vai ser quando crescer? – Vou me casar com Tristan.

Cotação: filme excelente (@@@@@)

COBRA