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quinta-feira, 24 de março de 2011

Quinta está no ar: Cinema: CÃO DE BRIGA

Este filme o titio COBRA escreve sobre um filme de lutas com um personagem ingênuo e reacional como um cão. Gostei muito.

Úrsula Maff



“Cão de Briga”

Jet Li já estrelou muitos filmes. Hong Kong está cheio deles, assim como Jackie Chan. O que me trás então ao enésimo filme de porrada? Muita coisa. Primeiro a locação: Glasgow, na Escócia, onde estive ano passado. Depois, o Morgan Freeman, um ator acima de qualquer suspeita. E por fim: meu querido mestre Yuen Woo Ping.

Em 71 estive com ele em um campeonato. Ela acabava de assinar seu primeiro trabalho como coreógrafo de lutas, no filme Mad Killer e havia passado o maravilhoso The Chinese Boxer. Tinha 26 anos e falava um chinês ininteligível de Guangzhan. Mas mesmo assim, nos entendemos. Como eu era uma criança, levei até pouca pancada para o nível de luta dele. Mas aprendi a admirar a Ópera de Pequim e o Kung Fu. Mestre Woo é o cara. Ele está por trás de Matrix, Kill Bill e tudo o mais. Ave Yuen!

Treinado desde garoto por um sórdido gangstêr, Danny é um cão de guarda. Usa coleira, vive preso, come mal e quase não fala. Mas soltou o bicho, é morte na certa. Instintivo, reativo ao extremo. Um lutador sem explicação. Em vez de dar um pontapé aqui, um soco ali, desviar do oponente, não. A técnica de Danny é tosca: ele esmurra o alvo até a sua queda, e nem se importa se é atacado. Mortal.

Além dessa violência desmedida, é obediente e controlável. Fiel. Fidelíssimo. Mas essa pode ser a sua maior escolha e falha. Já que só somos fiéis a quem nós confiamos plenamente. Ele não sabe do seu passado, sua origem, sua mãe e o seu amor pela música. Num intervalo qualquer do seu showzinho particular de pancadaria (cada cena melhor do que a outra, veja os movimentos de bloqueio e defesa, perfeitos) ele pede um piano.

Neste ínterim o seu carro é abalroado por um caminhão e metralhado. Como todo bom herói e animal, ele escapa. Vai parar na casa do excelente afinador de pianos, o Sam. Sam é cego. Primeiro vê Jet Li como uma criança. Depois o percebe como adulto e por fim tenta transformá-lo em um homem. Que é coisa bem diversa de ser menino e crescer apenas no tamanho. Faço o mesmo com meus pupilos no nobre esporte aquático.

Ali com Sam ele aprende o que é amor, carinho, afeição. E amizade. Ah, como eu gosto dessa palavra. A base para qualquer relacionamento humano, a amizade. Muito bonito. Apesar de 80% do povo que está no cine querer ver ação. Mas tem. Pode deixar. O monstrinho volta para resolver negócios não findos. E é pressionado. A cena dele lutando com os agressores profissionais na arena é uma aula de esquivas e equilíbrio.

Ele retorna para casa. O seu “dono” vem atrás. O confronto final. É bestial a luta no banheiro apertado. O jogo de mãos equivalente ao mestre Pai Mei, contra aquela armação de madeira para treinos.... O adversário é bom de pernas, Savate. Aí vem o derradeiro desafio. Voltar a ser cão e matar ou ser um homem? Veja a escolha de Danny. Na telona. É duca!

O que há de bom: coreografia de Yuen Woo Ping, meu eterno mestre

O que há de ruim: Jet Li fala algumas vezes, não deveria, ele é fraco, mas nesse filme atua bem, por incrível que pareça

O que prestar atenção: não precisa ser grande para ser forte e não precisa ser culto para ouvir Mozart

A cena do filme: a queda com o aparo de mão único, na arena, só um mestre faz isso (e a vida é assim, às vezes só uma mãozinha, já ajuda...)

Cotação: filme bom (@@@)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Quinta está no Ar: Filme "MARLEY E EU"


“Marley e Eu”

Um homem casado, uma esposa zelosa, e a casa vazia. E um cão. Adoro cães, posso assistir ao filme pela ótica canina ou pela humana. Uma será doce e outra meio amarga. Mas acredito que em um parágrafo cabem ambas. Cão-binação.

Ele é um jornalista meia-boca, cheio de sonhos que anda num carrinho europeu quebrado e está casado. E ela não consegue, ou não quer engravidar. Compra um cachorrinho, lindo, fofo, batizado de Marley. Um labrador cor de caramelo, totalmente indisciplinado. Cão-fusão.

O animal domina a casa de maneira completa, é um grande destruidor e os “pais” fazem-lhe as vontades todas. Enquanto isso o amigão –solteiríssimo- é repórter-investigativo e vive viajando. Cenas e cenas do animal arrebentando com todos os cômodos da residência, eu morri de rir. Cão-tinuação.

Até que ele numa enrascada total, tenta mudar de vida. Abandona os sonhos e resolve mudar para um condomínio chatésimo, mas seguro. E ela depois de um aborto, engravida. Novos takes do bicho se alimentando de mangas, almofadas, e até um presente de ouro. Arrebenta tudo, quebra até a paciência de ambos. Cão-tusão.

Ele recebe uma proposta irrecusável, muda-se para uma cidade fria e o ambiente de trabalho idem. A moça que sempre foi linda, entrega-se apenas ao trabalho. E Marley prossegue na sua saga de dono-da-casa sem limites ou prisões. O carro do repórter só vai melhorando. Cão-ciliação.

As crianças nascem e vão crescendo, umas briguinhas aqui e ali. O ator é muito simpático, gente boa, mas sem ação. Gosto quando ele escreve sobre o seu melhor amigo, o cão. Em vez de rivalizar por espaço com os novos rebentos, o Marley torna-se o melhor amigo deles. Não há cão-petição.

E a vida linear deles passa, com trabalho garantido, crianças lindas e um velho animal. Agora se arrastando, passando mal pela casa. O que toca as pessoas é a idealização de uma família padrão. Todos querem amar e serem amados. E somente um cão consegue fazer isso de maneira incondicional. Mas cães duram pouco, no máximo –os grandes- uns quinze anos. E aí? Final com muita cão-paixão.

O que há de bom: divertidas cenas das estripulias do labrador

O que há de ruim: a vidinha normal do casal não dá espaço para sonho mais altos

O que prestar atenção: eu vi uns quatro cães diferentes fazendo o Marley, a produção me respondeu que foram 22 e metade deles, filhotes

A cena do filme: o final lacrimejante, como eu já disse, amo cães

Cotação: filme bom (@@@)

Resenha gentilmente cedida por Giovanni Cobretti, O COBRA

Considerado entre seus pares como um dos sete melhores críticos de cinema do Brasil


Úrsula Maff