
O generoso João Baptista de Alencastro, médico, poeta, escritor, crítico de cinema, homem culto e viajado, um dos membros da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames nacional), tem ainda o mérito de amar e conhecer bem o nosso fiel amigo, inclusive escrevendo amiúde sobre sua cadela Úrsula, a qual chega mesmo a expressar ideias verbalmente, às vezes, e generoso que tem sido com este modesto vate, decerto não se incomodará de ter seu nome na dedicatória do cordel, o qual tem pelo menos o mérito de não ser dos longos e cansativos. Já não era sem tempo, amigo! Com certeza quando Úrsula souber da Redenção vai transmitir tal fato a outros cães, e, através do boca a boca, isto é, do late late, os cães daqui aos poucos vão deixando de ser desconfiados e tristes.
absaam
A REDENÇÃO DO CÃO
Para João Baptista de Alencastro
Toda vez que chego em casa
pela mulher e os filhos
e pelo cão tão querido;
mas de uns dias pra cá
percebi, dei de notar,
o bom cão entristecido.
Que teria acontecido?
O que houve de anormal?
Come bem, se exercita,
tem passeio matinal...
Tem sua casa, espaço...
Recebe carinho, abraço,
tem convívio social...
Algo de especial
notei nas próximas manhãs
quando o cão se reunia
com almas suas irmãs:
pareceu-me, sem enganos,
desconfiar dos humanos
quando estava com outros cães.
De influências malsãs
não há perigo... Até ri:
Todos os seus companheiros
são cães de bom pedigri.
Então dei de me esconder...
- Leitor, vocé não vai crer
naquilo que descobri!
Pelo que vi e ouvi
com experiência e atenção,
sem qualquer sombra de dúvida,
eu cheguei á conclusão
que eles ficam zangados
toda vez que são chamados
também pelo nome "Cão".
E não lhes tiro a razão:
quem sempre nos foi fiel
não deve ser comparado
a um mentiroso cruel...
Pois sabe qualquer marmanjo:
em sendo um cão nosso anjo
não era expulso do Céu!
E frente ao nobre papel
do bom cão, não é direito
que se julgue comparado
a um vilíssimo sujeito
- Arquétipo da Traição,
o Mestre da Ilusão,
espelho mais que imperfeito!
E eu, que sou um sujeito
que sempre busca a verdade,
procurei me informar
de tal erro, da maldade
de tratar com um só nome
fiel amigo do homem
e o Rei da Falsidade
Digo com sinceridade
que há uma confusão:
Cam - um filho de Noé -
deu origem ao nome Cão:
pai bêb'do e nu avistando,
saiu zombando e contando
- recebeu a Maldição!
Já o mesmo nome "cão"
que veio do termo "Kwon"
de origem indo-européia,
designa o cão que é bom.
Um termo vem do hebreu,
o outro é indo-europeu
com a mesma grafia e som.
Mas o bom cão, tendo o dom
de espelhar os mestres seus,
queira receber agora
raros cumprimentos meus:
se de Deus o homem é filho,
tu podes, sem empecilho,
se dizer Neto de Deus!
A Jesus, Jeová e Zeus,
peço a nobre proteção,
extensivas a um amigo,
o generoso João,
a Úrsula tão dedicado
- que receba com agrado
este cordel do bom cão!
Antônio Adriano de MedeIros
João Pessoa, 25 de janeiro de 2012.







